O reservatório de água da usina de Itaipu, na fronteira do Brasil com o Paraguai, situada na Região Sul deste país, abarca cerca de 1,3 mil quilômetros quadrados (km²) de perímetro, com aproximadamente 170 km de extensão da barragem ao lado oposto, e uma média de 7 km de largura entre as margens esquerda e direita.
Todo o potencial hidrelétrico presente na área alagada do Rio Paraná, responsável por mover turbinas que produzem até 14 mil megawatts (MW) de eletricidade, também pode ser utilizado para produzir eletricidade a partir de painéis solares instalados diretamente sobre a superfície da água. Essa é a experiência que está sendo analisada por especialistas brasileiros e paraguaios desde o final do ano passado.
No total, foram colocados 1.584 painéis fotovoltaicos em uma extensão inferior a 10 mil metros quadrados (m²) sobre o lago, em uma distância de apenas 15 metros de um trecho da margem na margem paraguaia, com profundidade de cerca de 7 metros.
A usina solar de Itaipu tem a capacidade de gerar 1 megawatt-pico (MWp), unidade de medida para a capacidade máxima de produção de energia. Essa quantidade de energia equivale ao consumo de 650 residências e é utilizada exclusivamente para consumo interno, sem ser vendida ou conectada diretamente à rede hidrelétrica de produção.
Na prática, o objetivo atual da "ilha solar" de Itaipu é servir como um centro de estudo para possíveis aplicações comerciais futuras. Os engenheiros que fazem parte do projeto analisam todos os aspectos, desde a interação das placas com o ambiente, incluindo possíveis impactos na vida aquática, temperatura da água, efeitos dos ventos no desempenho dos painéis, estabilidade da estrutura, flutuadores e ancoragem no solo.
No futuro, a intenção é expandir a geração de eletricidade por meio dessa tecnologia, o que exigirá uma atualização no Tratado de Itaipu existente, firmado em 1973 entre Brasil e Paraguai e que tornou viável a imensa obra de engenharia compartilhada.
"Se considerarmos um potencial de forma teórica, uma parcela de 10% do reservatório coberta por painéis solares seria equivalente a uma segunda usina de Itaipu em termos de capacidade de produção. Obviamente, esse não é um plano iminente, visto que ocuparia uma área considerável e requer ainda estudos adicionais, mas ressalta o potencial desta pesquisa", destacou o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti.
Cálculos preliminares sugerem que seriam necessários pelo menos quatro anos para concluir a instalação e atingir uma geração solar de 3 mil megawatts (cerca de 20% da capacidade instalada da hidrelétrica atualmente).
O investimento totaliza US$ 854,5 mil (aproximadamente R$ 4,3 milhões na cotação atual). As atividades de instalação foram realizadas por um consórcio binacional composto pelas empresas Sunlution (brasileira) e Luxacril (paraguaia), vencedor da licitação.
A diversidade de fontes de energia na Itaipu Binacional não se restringe às pesquisas em energia solar, mas envolve iniciativas arrojadas com hidrogênio verde e baterias.
Esses projetos estão em andamento no Itaipu Parquetec, um polo de inovação e tecnologia estabelecido em 2003 pela Itaipu Binacional em Foz do Iguaçu (PR). Conta com colaboração de universidades e empresas de setores público e privado e já formou mais de 550 doutores e mestres em áreas diversas.
No centro funciona o Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, que está envolvido na produção de hidrogênio verde. Essa designação é usada quando o hidrogênio é gerado sem emissão de dióxido de carbono (CO₂), gás responsável pelo efeito estufa e, consequentemente, pelo aquecimento global.
O método empregado no Itaipu Parquetec é a eletrólise da água, que realiza a separação dos elementos químicos a partir de moléculas como a molécula de água (H₂O), por meio de equipamentos em processos químicos automatizados feitos em laboratórios.
O hidrogênio verde é flexível e pode ser utilizado como insumo sustentável em diversas indústrias, tais como siderúrgicas, químicas, petroquímicas, agrícolas, alimentícias, entre outras, além de servir como combustível para os setores de energia e transporte. Na Itaipu, uma planta de produção de hidrogênio verde funciona como um local para o desenvolvimento de projetos piloto.
"Somos uma plataforma tecnológica, então trabalhamos para apoiar, por exemplo, pesquisas científicas ou projetos destinados à indústria nacional. Existem empresas nacionais que estão desenvolvendo seus projetos com caminhões movidos a hidrogênio, ônibus a hidrogênio, e este é o ambiente para testar e validar esses projetos", explica Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec.
Uma destas iniciativas foi apresentada durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, quando um barco movido a hidrogênio, proveniente de uma pesquisa realizada no Itaipu Parquetec, foi entregue para atuar na coleta seletiva em comunidades ribeirinhas próximas à capital paraense.
Outro destaque do Itaipu Parquetec é um centro de gestão energética, que impulsiona pesquisas na área de desenvolvimento de células e protótipos para fabricação e reutilização de baterias, para o armazenamento de energia, especialmente em sistemas fixos, direcionados a empresas ou outras instalações estáveis, que demandam, por exemplo, reserva de energia.
A Itaipu também tem focado na produção de biogás a partir de resíduos orgânicos gerados pelos restaurantes espalhados por diferentes partes da usina e de materiais apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) e pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA-Vigiagro) durante fiscalizações de fronteira.
Ao invés de ser descartado em aterros, todo esse material é transformado em biogás e biometano.
A convite da Itaipu Binacional, a Agência Brasil compareceu, em 13 de abril último, à reinauguração da Unidade de Demonstração de Biocombustíveis situada nas dependências da usina. O local é administrado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa criada por Itaipu focada em soluções de combustíveis limpos.
Por meio de um processo de biodigestão realizado em grandes tanques, alimentos oriundos de contrabando e outros resíduos orgânicos presentes na região são transformados em combustível limpo, que pode ser utilizado para abastecer veículos circulantes em Itaipu, os quais são abastecidos por cilindros de gás instalados nos automóveis.
Em quase nove anos em operação, de acordo com a usina, foram processadas mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, quantidade que resultou na produção de biometano suficiente para percorrer aproximadamente 480 mil quilômetros, o equivalente a 12 voltas ao redor da Terra.
A instalação também está desenvolvendo, de modo experimental, o bio-syncrude, um óleo sintético que pode ser utilizado na produção de SAF (Combustível Sustentável de Aviação, em inglês).
"Acredito que nos próximos 10 anos, veremos avanços significativos em relação aos combustíveis avançados. Ouviremos muito sobre hidrogênio, SAF, especialmente devido à futura legislação de combustíveis, que está em desenvolvimento. Biometano e SAF são os temas do momento", destaca Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás.
*A equipe da Agência Brasil foi convidada pela Itaipu Binacional.
Fonte: Agência Brasil
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